quarta-feira, fevereiro 22, 2017

EM NÓS DE BRANDAIS... A VIDA.

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imagem retirada da net

Uma estrada, um mar, uma nau catrineta de brincar:
nos olhos as brumas de um sedento sonhar, 
e nas mãos o leme - firme - de um rumo por mapear.
Uma estrela - cadente - de perdido mar, vem confiante e doce
no meu peito habitar. Deixa que o coração bata e esboce
um novo alento, um novo alvorecer na iniciada aceitação.

Deixo o cais de ensombrados desalentos e dolorosos punhais,
abro as velas aos ventos, enfrento ondas e marés sem arrais.
Da mágoa fiz uma âncora, amarrei a tristeza com duros nós de brandais.
Olho as estrelas, de enfarruscado céu, e a lua - lá do alto -, brilha,
como um luzeiro de fogo frio e distante: é a minha cartilha
nesta viagem sem início nem fim - viagem de paz e perdão.

Levo nos olhos um astrolábio de mundos a florir,
nas mãos um mapa de um tesouro ainda por descobrir,
e no corpo tatuei a palavra - amor -, apenas para me punir.
E a minha nau catrineta navega afoita em verdes mares,
enquanto ofereço uma muda prece em todos os altares,
em cada ermida de sonhos, esfumados e perdidos na imensidão.

Uma estrada, um mar, uma prece, uma nau catrineta de brincar....Apenas a vida a passar.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

ENTRE JASMINS E POESIA

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Deixei cair o véu da penumbra de uma manhã de outono,
despi-me da bruma da mágoa e soltei os cabelos de poesia.
Inalei os orvalhos e os mostos, névoas de maresia.
Misturei jasmins e rosas, canela e açafrão,
violetas inquietas: de musgos atapetei o meu chão.

Deixei pérolas salgadas suspensas em despida faia,
percorri, de pés descalços, todos os cais desta vida,
busquei respostas e sonhos: sentei-me só e dividida,
estendi braços indolores sobre terra e sobre mar,
apaguei todos os traços de uma tela por acabar.

Rasguei todos os meus pedaços: lanceio-os ao vento norte,
embarquei em nau sem rumo, naveguei em sal sem mar;
Trouxe do mar uma concha de nacarado palpitar
e enfeitei com ela os cabelos - negros de esperar -,
entrancei de novo a vida, em silencio; Devagar.

Deixei cair o véu do desencanto e o vestido do penar,
calcei sapatos de sonho, enfeitei de novo o brando olhar.
Peguei nas sobras e nas dobras enterrei-as no verbo amar.
E de novo fui com o vento, com a chuva: delicado madrigal
de esp’ranças semeadas em fecundo sonho virginal.

Assim renascem os olhos, assim florescem as mãos,
assim se bordam os sonhos em lenços de branco acenar,
e assim se constroem os ninhos dos corações a recomeçar.
Embarco em nau de desconhecido timoneiro,
entrego-lhe a vida que sobra, adenso-me no nevoeiro

e sigo sem olhar para trás. A vida por lá ficou perdida.
Oscilando em cada maré enfrento um novo ondular,
Adamastor se levanta com voz de fúria, a troar;
Os medos, as mágoas e o frio, ficaram no vazio cais;
Grita Adamastor, bem forte! Eu dobro o Cabo sem arrais!

Nada me verga, nada me quebra; Só o vento me levará
onde houver campos e flores: novos cheiros novos chãos.
Onde criarei novas raízes, onde terei de novo plenas mãos
de eterna poesia e sonho. E olhos de criança encantada
e risos de menina em flor; E a serenidade de cada madrugada.


quinta-feira, janeiro 19, 2017

O FRIO DE UM INVERNO QUE PASSA




Invade-me uma ânsia desconhecida
que corrói até ao fundo da alma,
um querer não querendo, uma ferida,
que sangra  numa mágoa calma.
O chão perde-se em espinhos agudos
e o ar, rarefeito de desencanto, suspira
por paz e harmonia: meus escudos
contra a dor que a mim se atira.
Invade-me este sentir sem sentir,
um destino sem estrada, sem chão,
este limbo de ir e não partir;
Ficar. Oca, e vegetar em vão.
Invade-me o suceder dos dias,
 o perpassar das noites escuras.
Todas as imensas memórias frias
que foram vulcões de mil juras
e nada mais são que negra escória.
Voaram as borboletas de uma luz desconhecida,
partiram as gaivotas em memória
de um tempo passado; Vida vivida.
Invade-me um pomar de orvalhos,
que chove em brandos raios de luar,
vou jogando e misturando os baralhos
das cartas que ainda tenho para jogar.
Invade-me uma desinvasão de Ser,
um Eu que já não sou, nem tenho:
passa a vida por mim a acontecer,
e eu parto…  Não me detenho.
Invade-me este vazio de invernia,
 a alma recolhe-se em sintonia.



quinta-feira, janeiro 12, 2017

AO SABOR DO VENTO - LAVAS DE DESTINO




A vida corre ao sabor das horas, ao sabor do vento
e das marés que os anjos, e os demónios, tecem sem parar.
Entre o aqui e o lá vai uma ponte de desejos por cumprir,
um mar de rosas por florir,  uma águia astuta em voo lento.
E a vida corre, salta, pula, brinca e foge para nos desafiar.
Por entre vendavais e bonanças a vida esvai-se - em pleno peito,
em amenos risos, em amargas lágrimas, em sonhado leito.

A vida corre pelas colinas dos sonhos, que se abrumam nos olhos,
de quem se atreve a desenhar caminhos por percorrer e trilhar.
Entre o cá e o aí estende-se um trilho de pedras: negras - escolhos -,
que a vida se encarrega de construir, de engrandecer, de enredar.
E a vida faz-se;  E a vida semeia-se em corações calados,
em olhos saudosos, em amores mordentes e acicatados.

A vida arroteia-se, lavra-se, semeia-se. A vida enfrenta-se: dura.
E entre o cá e o lá constrói-se um castelo de areia, um desejo,
um sonho ou quimera - saudade - agreste, que o tempo apura.
Correm as nuvens por céus e mares, por brumas que sinto: e vejo,
que me abraçam gélidas; Dormências, despidas, num Aqueronte
sem principio nem fim. Até que um novo sonho acorde, desponte.

A vida corre; Ao sabor das horas - pelas colinas de sonho -,
ao sabor do vento, a desenhar caminhos onde me escrevo e deponho.



sábado, janeiro 07, 2017

SEM ETERNIDADE NEM TEMPO

Eternidade é um segundo de sol doirado,
é uma lágrima mais sentida num sonho acabado.
Eternidade é a maré sem oceano nem ondas,
onde mergulho as mãos sem sentir frio ou calor.
Eternidade é um não cá - nem lá - para além do desamor.

Eternidade toca-se com a ponta dos dedos e perde-se
com um piscar de olhos: ainda que atentos; Perde-se.
Eternidade é uma sombra que se esconde em cada suspiro,
e se apaga, a cada anoitecer, nas dobras do manto aveludado
de um oblívio quase etéreo. Como anjo a ouro encastoado.

Eternidade é um momento - suspenso - num tempo sem tempo.