terça-feira, outubro 24, 2017

COMBOIO DA VIDA - ESTAÇÕES, APEADEIROS...








Pouca-terra, ou muita terra: assim passam os tempos,
assim passam os anos e corre o comboio pela vida.
Quantos entraram nele? Não sei, perdi a conta.
Perdi as paragens onde entraram e saíram. Os momentos
que foram lições de vida, pedaços de alma dividida.
Mas todos deixaram elos, traços, marcas de remonta.
Corre, ainda, o comboio; o meu comboio de vida,
e entram e saem passageiros, passam estações de fugida.


imagem retirada da net


Pouca-terra e muita terra. Sim, muita terra percorrida,
sonhos trocados, lágrimas escorridas, sorrisos e gargalhadas.
Corre o comboio na linha, sempre em frente sem parar.
Nele ficam as memórias, os momentos e a dor da partida.
Mas os nossos comboios têm rumo, têm esperanças guardadas,
e têm momentos de agrura, lágrimas difíceis de calar.
E o comboio não se detém, segue, segue sem parança,
ainda carrega sonhos, ainda transporta a esperança.




lágrimas de lua





terça-feira, outubro 17, 2017

LUTO



Imagem retirada da net







Chove! Uma água de negro pintada,
mas branca e pura como lágrimas de anjos.
Esta guerra, por agora calada e encerrada,
deixou cicatrizes, marcas ferozes; perdas.

O fumo ainda se enrola e cola à pele
de todas as almas que olham, sem ver,
sem perceber. Ainda há quem zele
por destroços retorcidos ainda a ferver,
a suar, a esfumar e soluçar; a morrer.

As sobras de vidas que o fogo devorou
são hinos fúnebres que todo um povo chorou.
Chove! Chove uma água de Paz e balsamo.


O negro? Esse - pinta a natureza sofrida.



lágrimas de lua
Imagem retirada da net

sexta-feira, outubro 13, 2017

ADORMECIDA ALMA



Encontro, nos desencontros da vida, uma garça fluída,
fugidia e breve, como uma suave brisa de um mar cobalto,
sem fundo nem idade.
Num sopro de verdade,
onde não habita nem alma nem coração, nem doce sobressalto.
Apenas uma imensidão de teias, pedaços de roupa puída
e fios de sonhos pendurados em descarnados galhos.
Na metade de uma rubra maçã; roída de invejado sabor,
escorrem o mel e o fel, lado a lado, irmãos de um destino
traçado a carvão, a tinta da china, embotados nos trabalhos
que mão humana esqueceu; no deslizar do desamor.
Afogando no mar, do cobalto mais puro, a raiz de um coração,
enterrando na areia, morna de solidão, as sementes de uma paixão.
Encontro, nos desencontros da vida, uma gaivota perdida,
numa ilha que, de tão silenciosa, ficou esquecida
e guardou, sequiosa, o limbo de uma alma adormecida.


lágrimas de lua

sexta-feira, outubro 06, 2017

DÓ, RÉ, MI - UM PIANO....

imagem retirada da net
Dó ré mi, martelam os dedos no piano
uma melodia que o sol traga e o vento espalha.
Pela janela escorrem acordes pelo jardim,
as notas elevam-se, dilatam-se; a melodia encalha
na sebe bem aparada e nos arroubos do jasmim.
Dó, ré, mi, depois um fá e um sol sustenido a preceito,
que o pianista sabe o que faz; arranca melodias
das teclas de marfim causticado de um piano ancião.


E as borboletas volteiam ao som de pios e cantorias
dos pardais e dos melros, e do pica-pau folgazão,
que bate o compasso no tronco onde vai fazer o ninho.
, ré, mi, sol, sol, la, si. Dó, dó, la, la, si. Sol, sol dó.
O bailado estende-se pelas dobras das horas a passar,
parece que o dia engrandeceu, soprou para longe o pó
que restava das cinzas de vidas passadas por catalogar.

E trinam as teclas marfínicas do piano uma valsa de arrepiar,
uma polca, uma rumba, um fox-trot aprumado,
no jardim tudo rodopia, tudo salta e pula e dança.
A melodia contagia, espicaça a vida e o sonho enfeitiçado,
arrebata a natureza arrasta-a na loucura do dia que avança.
Dó, ré, mi, martelam, ainda, os dedos no piano desta vida:

Ah como é bela a valsa neste jardim de partida.



lágrimas de lua