sexta-feira, julho 14, 2017

MELODIA QUEBRADA



No veludo negro do celestial manto
escuto as notas de um piano sofrido,
percorro as memórias dedilhando, em pranto,
esta inquinada melodia de um coração partido.
Visto-me de brumas e sonhos – parto sem rumo –
pelas pedras de uma calçada que desconheço,
perdendo-me numa noite em que me esfumo
como suspiro de borboleta breve, e amanheço
num barco sem leme, ancorado em cais de partida
á espera de uma maré; á espera de uma vida.
E o piano toca, chora e geme em louco pranto,
e a noite cala-se para lhe ouvir a dor.
Palmilhando a calçada vai a alma num quebranto,
vai a vida deslizando, vai serena e já sem cor.
No cais das vidas perdidas uma sereia soluça,
traz nas mãos salgadas pérolas, rosário de muitas lutas.
E o barco faz-se ao mar, onde se agita e embuça,
rangendo as madeiras doridas, gastas de tantas escutas.
Toca o piano pela noite, em tom plangente,
e a alma cala-se, recolhida e dormente.


No veludo negro do celestial manto… ainda oiço as notas do piano 












2 comentários:

Louraini Christmann - Lola disse...

Até ouvi o piano tocando
E a maré, a maré, a maré...

Bommmm

abraço
Lola

CÉU disse...

Olá, minha querida amiga!

Embora a poesia, que costuma escrever não seja muito risonha, feliz, esta está ainda mais pesarosa, dolorida, pungente e até o veludo é negro. talvez, isto se deva à partida de uma "rosa branca num dia negro", sim, talvez!

O mar, os barcos, os elementos marítimos, quase sempre, preenchem as suas palavras e dão dimensão ao que tão bem escreve.
Ah, essa alma, esse eu-lírico tão sofrido e recolhido! Um dia, a bonança chegará.

Beijos e um mega abraço. Boa semana.