terça-feira, outubro 17, 2017

LUTO



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Chove! Uma água de negro pintada,
mas branca e pura como lágrimas de anjos.
Esta guerra, por agora calada e encerrada,
deixou cicatrizes, marcas ferozes; perdas.

O fumo ainda se enrola e cola à pele
de todas as almas que olham, sem ver,
sem perceber. Ainda há quem zele
por destroços retorcidos ainda a ferver,
a suar, a esfumar e soluçar; a morrer.

As sobras de vidas que o fogo devorou
são hinos fúnebres que todo um povo chorou.
Chove! Chove uma água de Paz e balsamo.


O negro? Esse - pinta a natureza sofrida.


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sexta-feira, outubro 13, 2017

ADORMECIDA ALMA



Encontro, nos desencontros da vida, uma garça fluída,
fugidia e breve, como uma suave brisa de um mar cobalto,
sem fundo nem idade.
Num sopro de verdade,
onde não habita nem alma nem coração, nem doce sobressalto.
Apenas uma imensidão de teias, pedaços de roupa puída
e fios de sonhos pendurados em descarnados galhos.
Na metade de uma rubra maçã; roída de invejado sabor,
escorrem o mel e o fel, lado a lado, irmãos de um destino
traçado a carvão, a tinta da china, embotados nos trabalhos
que mão humana esqueceu; no deslizar do desamor.
Afogando no mar, do cobalto mais puro, a raiz de um coração,
enterrando na areia, morna de solidão, as sementes de uma paixão.
Encontro, nos desencontros da vida, uma gaivota perdida,
numa ilha que, de tão silenciosa, ficou esquecida
e guardou, sequiosa, o limbo de uma alma adormecida.


lágrimas de lua

sexta-feira, outubro 06, 2017

DÓ, RÉ, MI - UM PIANO....

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Dó ré mi, martelam os dedos no piano
uma melodia que o sol traga e o vento espalha.
Pela janela escorrem acordes pelo jardim,
as notas elevam-se, dilatam-se; a melodia encalha
na sebe bem aparada e nos arroubos do jasmim.
Dó, ré, mi, depois um fá e um sol sustenido a preceito,
que o pianista sabe o que faz; arranca melodias
das teclas de marfim causticado de um piano ancião.


E as borboletas volteiam ao som de pios e cantorias
dos pardais e dos melros, e do pica-pau folgazão,
que bate o compasso no tronco onde vai fazer o ninho.
, ré, mi, sol, sol, la, si. Dó, dó, la, la, si. Sol, sol dó.
O bailado estende-se pelas dobras das horas a passar,
parece que o dia engrandeceu, soprou para longe o pó
que restava das cinzas de vidas passadas por catalogar.

E trinam as teclas marfínicas do piano uma valsa de arrepiar,
uma polca, uma rumba, um fox-trot aprumado,
no jardim tudo rodopia, tudo salta e pula e dança.
A melodia contagia, espicaça a vida e o sonho enfeitiçado,
arrebata a natureza arrasta-a na loucura do dia que avança.
Dó, ré, mi, martelam, ainda, os dedos no piano desta vida:

Ah como é bela a valsa neste jardim de partida.



lágrimas de lua

sexta-feira, setembro 29, 2017

MADRUGADAS DE VENTO NOVO


Vi nascer o sol por entre as nuvens,
levantei-me com as madrugadas de vento
e sacudi a poeira de tempo.
Escancarei as janelas do lamento
deixei voar as tempestades.
Ouvi a aurora que se levanta
e vi o despertar de novos sentidos,
espreitei um ninho onde a vida canta,
tomei nas mãos o renascer.
Traguei o dia num cálice de barro,
comi o pão que mãos saudosas cozeram.
Atei os sonhos na asa de um cagarro;
larguei-o ao vento - voa! Voa bem alto.
Fechei os olhos e senti o mar,
toquei as algas, beijei os nautilus,
trotei em cavalos marinhos de encantar.
Abri as asas, de gaivota anquilosada; e voei!
Voei com um hino na voz e vida no olhar.
O mundo é um lugar estranho onde habito
e desabito. Onde me perco e volta a encontrar,
onde a maresia traz poemas para além do mar.
E o nascer deste sol encasulou a força de querer,
vestiu de arco-íris a dança das palavras: deu-lhes cor,
pintou uma tela de sonhos a crescer.
Hoje o sol nasceu verde; nasceu rosado e azul,
nasceu de um paleta de pintor louco, poeta maior,
e elevou-se- enorme - rubro, do tamanho da eternidade,
ajoelhada e rezada, em silencio, no altar-mor
da orada da vida.
Vi nascer o sol por entre as nuvens,
e o dia, simplesmente: aconteceu.






lágrimas de lua

quarta-feira, setembro 20, 2017

UMA ESCADA...POR SUBIR?


A vida é uma escada por subir,
uma porta por transpor
uma janela por desemperrar e abrir.
Degrau a degrau, pé ante pé;
subir, subir sem medo. Apenas ir,
com a certeza de que a vida, essa
é, somente, uma escada por enfrentar,
íngreme, abrupta, uma guerra para travar.
A vida é só uma escada por subir,
e quantas vezes por descer,
e quantas vezes um desejo de sumir,
de partir sem deixar rasto.


Tão somente esfumar, suave diluir.
Subindo e descendo, em trôpegos passos,
escada de pedra, gasta, lisa, dura.
Escada de sonhos, no silêncio da loucura.
A vida é uma escada de gritos e sussurros,
de noites que se abrem em alvoradas,
de monstros, de fadas, de beijos e urros,
de dor; mas também de magia - de cor.
A vida é uma escada de corações casmurros,
e de verdades agudas rasgando as carnes.
A vida é uma escada de verde moldura,
a vida é um trilho entre as pedras e a lonjura.
A vida é uma escada por subir,
uma porta por transpor,
uma janela por desemperrar e abrir.
A vida é uma sombra de poema por compor.


lágrimas de lua




quarta-feira, agosto 30, 2017

PRINCESA DOS "LÍRIOS DO CAMPO"




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Porque choram os teus olhos, princesa?
Porque não entranças os teus sonhos de menina?
Calças sapatos de refulgente leveza
e envergas a capa de uma invernosa tristeza.
Os anos lavaram as mágoas nas águas dos teus olhos,
branquearam os sonhos em campo de “alecrim aos molhos”.
Do teu castelo altaneiro olhas os “lírios do campo”,
vês o tempo correr incessante, marcado em torto relógio.
“Meu Deus, é tarde, é tarde!” – ainda mal desponta o dia,
perdes graça, perdes vida, perdes o sonho à porfia.
Olhas cada nova madrugada, choras cada novo ocaso,
enrodilhado o coração, pergaminhada a tua alma,
entranças esperanças mortas com esvaziada calma.
Vês nuvens de cobre e de chumbo, mares fundos, praias cegas.
Vês os barcos partirem sem rumo; gaivotas de asas quebradas,
sonhas com um alvo unicórnio, histórias; lendas encantadas.
Desfias o rosário dos anos como contas de fino âmbar,
bordas a doce matiz o pano do teu embotado viver,
e juntas as horas e os dias cozendo-os ao teu sofrer.
Passam os tempos, passando, pelo teu rosto de flor,
definham os tempos, definhando, no teu corpo por colher.
Nesta vida que não vives, ficam palavras encolhidas - a morrer.
Borda, linda bordadeira, princesa de um reino sem reinado,
tece um fio de ouro e prata, tece um sonho que é só teu.
Ah, princesa desterrada, não te afundes em breu!
Por quem choram os teus olhos, princesa?
Sai!  Veste-te de realeza.



lágrimas de lua

POR ENTRE O SILENCIO E AS PEDRAS






Procurei entre o silêncio das pedras,
o verde da esperança flutuante
e o dourado de um sol cantante.
Procurei o que não se encontra;
apenas se vive e se sente,
apenas se escreve e pressente.
Procurei entre o silencio das pedras
a essência para a vida.
Um ponto de chegada ou de partida.
Um porto de abrigo, uma ponte de bambu,
ou apenas um refugio; um suspiro de anjo,
um olhar de fogo, um piano onde esbanjo
as notas de um duro caminhar.

Procurei no silencio das pedras
o âmago da minha alma, fímbria de coração,
os passos para voltar, a letra de uma canção
há muito amordaçada. É no silencio das mágoas
que nascem novas auroras das cicatrizes que ficaram,
de lutas há muito travadas. Os sonhos que claudicaram
são hoje o musgo das pedras no silencio deste mundo,
são abrigos, são luz, são eternidade em pó,
são os caminhos que percorro em paz e só.
Procurei entre o silencio das pedras,
uma razão, um destino ou apenas o caminho sonhado,
encontrei-me comigo mesma a dedilhar o passado.


É no silencio das pedras que se ouve o grito da vida. 

Lágrimas de lua

sexta-feira, agosto 04, 2017

TATUAGEM




Trago tatuado no corpo,
o mapa do nosso passado.
São um sulco esvaziado
todos os rios, agora secos,
de uma vida na penumbra.
As montanhas que subimos
e cada vale que descobrimos,
cada meandro, cada sombra,
cada prado, cada planície,
que afloravas á superfície
de uma pele que te recebia.
O mapa, qual cicatriz do tempo,
cobre-me o corpo a contratempo.
Os rios que navegavas
já perderam o azul das águas,
e nas margens só as mágoas
se espalham na memória.
Olho hoje as íngremes montanhas,
(como me parecem estranhas!)
já não vejo os alegres cumes,
apenas escarpas agrestes,
rasgadas de todas as vestes.
O mapa, desvanecido de esperas,
perde as cores, perde a harmonia,
tatuagem negra,tatuagem de nostalgia.
São apenas linhas vãs,
que um dia foram caminho,
foram vida e valioso pergaminho.
Hoje é mapa a carvão traçado,
apenas uma tatuagem a lembrar

que um sonho pode acabar.

lágrimas de lua

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terça-feira, agosto 01, 2017

ENTRE O CAOS E A ORDEM




Entre o caos e a ordem,
no meio caminho entre o sol e a lua,
nem sempre vestida nem nunca nua,
entre o nascimento e o ocaso.
Entre o caos e a ordem,
num oceano de lírios e violetas;
selvagens. Silvestres.
Discretas e agrestes.
Entre o caos e a ordem,
coração pleno e coração vazio,
agora fervente, já, já tão frio.
Num tempo mestre, no outro aprendiz.
Entre o caos e a ordem,
ora pairando em voo largo,
ora chorando em solo amargo;
ora livre em cais de esperança,
ora peado em penedia esquecida.
Entre o caos e a ordem,
entre o principio e o fim,
entre o não redondo e o perfeito sim.
Meio caminho entre o “quero” e o “não quero”,
entre o sei e o nem tanto assim.
Entre o caos e a ordem,
entre a candeia e a negritude,
meio termo entre o sonho e a plenitude,
vogando num rumo sem rumo,
penando num mundo sem mundo.
Entre o caos e a ordem,
uma bolha de sabão vogando sem norte,
vogando sem destino nem sorte.


lágrimas de lua

sexta-feira, julho 28, 2017

ENTRE O AQUI E O AÍ - VAI UM MAR DE SAUDADES





Estou a olhar para as nuvens tentando ver para além delas, como se disso dependesse a vida.Como se tal me fosse permitido; sabendo eu, como sei, que não é. Ainda assim, olho – forço o olhar –, porque te quero ver! Nesse teu novo lar, nessa tua dimensão de paz e luz. O sol está envergonhado neste dia em que, insistentemente, relembro uma partida.Encobre-se comigo!
O sol vela-se para deixar brilhar uma outra luz – a tua –, estrelinha que cintila lá bem no alto. Sabes? Hoje a dor da saudade é mais mansa, mas nem por isso, menos intensa. 
Ao contrário; o tempo passa, mas este amplo espaço, que deixaste, continua vazio, tão dolorosamente vazio! Achas que algum dia deixarás de me doer?
E continuo a olhar para as nuvens. Vão mudando de forma pela mão moldadora do vento – ventania corroente -, resvalam, como lava, pelo céu sujo de tempo cerceado. Como maratonam estas nuvens de saudade! E eu esforço-me por ver através delas; para lá do que escondem aos nossos olhos. Estico-me, como criança de colo que quer ver os palhaços no circo, mas apenas vejo algodão branco, algodão cinzento, algodão rosado – algodão. As asas dos anjos que nos velam as noites (e os dias), os mensageiros de Deus, ou de um deus, ou de uma força superior, ou …
E as nuvens desfilam, em parada, sobre a minha cabeça; acabam por acalmar a dor, mascarar o vazio, calar as lágrimas que, invariavelmente, solenemente, dolorosamente, ainda caem, ainda inundam o rosto, as mãos - a vida. Talvez este desfile celestial seja um beijo teu… Tu sabes que eu adoro a natureza! Acredito que tenhas pedido ao Pai para me dar um sinal, um sinal que estás aí; perdão! Que estás AQUI!!!
É isso, não preciso de ver mais nada, procurar mais nada; já tenho tudo o que posso ter!

Minha estrelinha recebe um beijo meu daqui até aí. Hoje e sempre.


lágrimas de lua


domingo, julho 23, 2017

UM NOVO ANO PARA VENCER




Uma névoa de lembranças sem nexo nem tempo,
espelham-se num sorriso sem cor - apenas sorriso,
sem noção de vida nem de morte.
Apenas um momento, este; o segundo em contra-tempo,
que o presente esvai-se sem rasto - impreciso.
Sem saber se é fraco ou forte.
Olhar sem ver, ver sem entender, apenas uma casca
que um dia foi habitada; teve alma, coração, sentir.
Ainda assim, está. Ainda assim sorri como criança,
que sem saber procura abrigo, inconsciente, da borrasca.
Que pede segurança, quem sabe um colo, sem pedir.
Um apenas existir sem noção nem lembrança.
 Uma vida de névoa, uma névoa de vida,
uma luta desigual, uma luta perdida,
uma sombra de gente, 
uma alma ausente.
Mas ainda assim.... Mais um ano de vida. (87)

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UM ABRAÇO DE ABRAÇAR


Hoje fui ouvir o vento
forçando-se por entre a folhagem,
rosnando por entre os troncos a brincar à cabra-cega.
Hoje, a paz que vem por dentro,
trouxe-ma o vento à sua passagem,
conversando com a natureza em singela entrega.
Conciliábulo de força e vontades,
rumorejam as copas, bem lá no alto,
e o vento sopra, ardente, rente à vida.
Agitam-se as folhas, conjuram-se as verdades;
as mãos dos bons gigantes tomam de assalto
o ar, a tarde, o espaço, beleza emergida
das entranhas de uma terra sofrida.
Debaixo das copas agitadas e felizes,
detive os passos em silenciosa adoração.
Cabelos ao vento conversador,
coração em sintonia e alma pacificada, recolhida,
sacudida pelas mãos do vento, rijo, deste Verão.
Ouvindo as árvores no seu conversar apaziguador.
Como amoras de negra doçura e silencioso perdão.
Hoje fui ouvir o vento; sentir-lhe as mãos,
saborear-lhe o gosto nos lábios sequiosos de paz.
Hoje fui inundar-me de alegria,
vestir a pele da natureza, despir-me de sonhos vãos.
O sorriso fez-se fácil: sem razão, daqueles que apraz
sentir crescer. Verdadeiro, interior – em amena sintonia
com o rugir das árvores - e o bramir do vento.
Hoje fui vestir-me de mim ; em paz por um momento.

Se perguntarem por mim digam:
 Que parti – parti feliz… fui abraçar uma árvore; ouvir-lhe a voz.


Oiço o mar em terra adentro;
ondas bravias em célere movimento.
E vejo-as, verdes, agitadas, frenéticas,
de cá para lá… de lá para cá - eclécticas.
Os bons gigantes dançam ao som do vendaval;
gigantes de anciã elegância, roupagem sem igual.
Oiço o mar na ramaria, parecem marés vivas!
Contorcem-se os troncos, agitam-se as folhas esquivas.
Fecho os olhos para sentir este rumorejar,
quase sinto o salitre, quase toco o imenso mar.
Oiço-o em terra seca, em encosta de verde vestida,
ondulante como maré cheia em pleno areal estendida.
Frenética dança de folhas, hiperbólico perfume
espalhado pelo ar, chocalhado de ventania.
Um mar, em terra adentro, soprando o seu queixume

pelas copas verdes, despenteadas, em desenfreada melodia. 


lágrimas de lua

terça-feira, julho 18, 2017

ESPAÇO POR PREENCHER




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Neste espaço onde se perde o querer,
onde a alma tropeça sem perceber
que errou no caminho escolhido.
Neste espaço onde se juntam os restos
de um acreditar sem tamanho; todos os gestos
que ficaram a morrer sem mais sentido.
É neste espaço que retoco a face, enxugo a dor,
calo a tristeza, componho o cabelo sem cor
e o olhar sem brilho. Visto o vestido de primavera
para me esquecer do frio e escuro inverno.
É no silencio deste espaço, de amordaçado inferno,
que procuro as lições com que a vida me tempera,
me molda, me torce e retorce, e me veste de bruma.
E me veste de encanecido sonho, desvanecido na espuma
de um tempo arrancado ao tempo. De um tempo que passou.
Neste espaço de atabafado ser andante, sem varinha de condão,
sem passes de mágica; onde apenas a construída solidão
impera – rainha –, senhora e dona de tudo o que restou.
Neste espaço de limbo sem sentires, de dor embotada
de tanto doer. De caminhos feitos de passos incertos a tropeçar,
e decisões que o tempo impõe e a vida se empenha em retardar.
Neste espaço que medeia o ontem e o hoje, ponte tão desejada;
ponte tão amada, ponte tão querida, ponte tão amargamente sofrida…
Neste espaço que, hoje, refaço com o que sobrou do sonho desfeito,
ainda há lugar para memórias, ainda há lugar para a dor e, por defeito,
há lugar para a esperança – uma ténue sensação de partida.
Neste espaço onde se perde o querer…
Neste espaço onde se juntam os restos…

Neste espaço inundado de um tempo para esquecer.





lágrimas de lua

sexta-feira, julho 14, 2017

MELODIA QUEBRADA



No veludo negro do celestial manto
escuto as notas de um piano sofrido,
percorro as memórias dedilhando, em pranto,
esta inquinada melodia de um coração partido.
Visto-me de brumas e sonhos – parto sem rumo –
pelas pedras de uma calçada que desconheço,
perdendo-me numa noite em que me esfumo
como suspiro de borboleta breve, e amanheço
num barco sem leme, ancorado em cais de partida
á espera de uma maré; á espera de uma vida.
E o piano toca, chora e geme em louco pranto,
e a noite cala-se para lhe ouvir a dor.
Palmilhando a calçada vai a alma num quebranto,
vai a vida deslizando, vai serena e já sem cor.
No cais das vidas perdidas uma sereia soluça,
traz nas mãos salgadas pérolas, rosário de muitas lutas.
E o barco faz-se ao mar, onde se agita e embuça,
rangendo as madeiras doridas, gastas de tantas escutas.
Toca o piano pela noite, em tom plangente,
e a alma cala-se, recolhida e dormente.


No veludo negro do celestial manto… ainda oiço as notas do piano 



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quinta-feira, julho 13, 2017

UMA ROSA BRANCA NUM DIA NEGRO

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Olho o céu nesta noite que caiu, 
sem que pudesse prender o dia,
e parte do meu coração ruiu.
Partiu contigo, amiga; quem diria
que te fosse dizer "adeus até a eternidade"!
Tu, anjo doce, mulher de tamanha bondade,
que espalhavas sorrisos e magia,
que escondias a mágoa e a dor.
Deixas um espaço onde a tua energia
vai fazer florir um jardim de amor.
Esse amor que nunca negaste,
essa mão com que sempre acarinhaste
quem de ti dependia, quem de ti vivia.
Repousa no teu lugar lá no firmamento;
alma generosa de um perfume que inebria
quem contigo conviveu. Hoje só o meu lamento
que se queda em profunda oração.
As tuas "estrelas e sorrisos" não voltarão
a povoar o meu caminho...

Descansa em paz querida amiga; os teus aguardam-te de braços abertos.
O amor que espalhaste a ti retorna....

ATE À ETERNIDADE HELENA


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terça-feira, junho 27, 2017

ORIGAMI

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Alma dobrada em dois, coração partido em quatro,
boneca de porcelana mas mãos de uma criança
e janelas abertas ao sol poente mordendo de esperança.
Um mar que se quebra ao longe na penedia rude,
arrastando as lembranças de uma vida passada,
de sonhos ardentemente sonhados. Folha amassada
perdida num canto escuro da mente, para não doer,
para não ferir; apenas esquecida de tempos sem tempo.
Melodia furiosamente martelada a meio-tempo,
semi-breves e colcheias bailando em louca alucinação,
acordes de outras vidas que flutuam num limbo sem cor,
que se acomodam em leito de folhas secas de dor.

Alma dobrada em dois, coração partido em quatro,
andorinha sem Primavera olhando o mar sem fim,
esperando que passe o infinito com asas de alvo marfim, 
tolhendo o voo e a partida. Andorinha solitária
em cais de ansiadas chegadas e dolorosas idas.
Lenços brancos de acenadas despedidas,
olhos cansados de lágrimas frias de solidão.
Como é frio este ar de salgado azul e duro bem-querer!
Como pesam os grilhões de uma alma a morrer!
Ecoam melodias gastas de tanto correr o piano,
e as memórias fluem como pássaros sem céu nem terra,
sem ninho nem descendência. O sol, a seara e a serra
passam, com o rodopiar dos dias, na sua muda harmonia,
nas sua radiosa cantata; ópera de mil cantores,
mil palcos, mil cenários e mil cores.

Alma dobrada em dois, coração partido em quatro,
pés descalços em pesado chão de chumbo,
mãos vazias onde me esqueço e sucumbo,
olhar sem pleno nem vago; apenas um só olhar.
Apenas um bálsamo, apenas uma fonte de saudade,
apenas um só vislumbre, uma tosca oportunidade.
Menina que vês o mar de barcos sem velas nem mastro;
olhas, olhando sem ver, choras chorando sem chorar,
cala as lágrimas, o soluço; levanta-te... Tens um mundo por caminhar



lágrimas de lua