sexta-feira, agosto 04, 2017

TATUAGEM




Trago tatuado no corpo,
o mapa do nosso passado.
São um sulco esvaziado
todos os rios, agora secos,
de uma vida na penumbra.
As montanhas que subimos
e cada vale que descobrimos,
cada meandro, cada sombra,
cada prado, cada planície,
que afloravas á superfície
de uma pele que te recebia.
O mapa, qual cicatriz do tempo,
cobre-me o corpo a contratempo.
Os rios que navegavas
já perderam o azul das águas,
e nas margens só as mágoas
se espalham na memória.
Olho hoje as íngremes montanhas,
(como me parecem estranhas!)
já não vejo os alegres cumes,
apenas escarpas agrestes,
rasgadas de todas as vestes.
O mapa, desvanecido de esperas,
perde as cores, perde a harmonia,
tatuagem negra,tatuagem de nostalgia.
São apenas linhas vãs,
que um dia foram caminho,
foram vida e valioso pergaminho.
Hoje é mapa a carvão traçado,
apenas uma tatuagem a lembrar

que um sonho pode acabar.



imagem retirada da net







terça-feira, agosto 01, 2017

ENTRE O CAOS E A ORDEM




Entre o caos e a ordem,
no meio caminho entre o sol e a lua,
nem sempre vestida nem nunca nua,
entre o nascimento e o ocaso.
Entre o caos e a ordem,
num oceano de lírios e violetas;
selvagens. Silvestres.
Discretas e agrestes.
Entre o caos e a ordem,
coração pleno e coração vazio,
agora fervente, já, já tão frio.
Num tempo mestre, no outro aprendiz.
Entre o caos e a ordem,
ora pairando em voo largo,
ora chorando em solo amargo;
ora livre em cais de esperança,
ora peado em penedia esquecida.
Entre o caos e a ordem,
entre o principio e o fim,
entre o não redondo e o perfeito sim.
Meio caminho entre o “quero” e o “não quero”,
entre o sei e o nem tanto assim.
Entre o caos e a ordem,
entre a candeia e a negritude,
meio termo entre o sonho e a plenitude,
vogando num rumo sem rumo,
penando num mundo sem mundo.
Entre o caos e a ordem,
uma bolha de sabão vogando sem norte,
vogando sem destino nem sorte.


sexta-feira, julho 28, 2017

ENTRE O AQUI E O AÍ - VAI UM MAR DE SAUDADES





Estou a olhar para as nuvens tentando ver para além delas, como se disso dependesse a vida.Como se tal me fosse permitido; sabendo eu, como sei, que não é. Ainda assim, olho – forço o olhar –, porque te quero ver! Nesse teu novo lar, nessa tua dimensão de paz e luz. O sol está envergonhado neste dia em que, insistentemente, relembro uma partida.Encobre-se comigo!
O sol vela-se para deixar brilhar uma outra luz – a tua –, estrelinha que cintila lá bem no alto. Sabes? Hoje a dor da saudade é mais mansa, mas nem por isso, menos intensa. 
Ao contrário; o tempo passa, mas este amplo espaço, que deixaste, continua vazio, tão dolorosamente vazio! Achas que algum dia deixarás de me doer?
E continuo a olhar para as nuvens. Vão mudando de forma pela mão moldadora do vento – ventania corroente -, resvalam, como lava, pelo céu sujo de tempo cerceado. Como maratonam estas nuvens de saudade! E eu esforço-me por ver através delas; para lá do que escondem aos nossos olhos. Estico-me, como criança de colo que quer ver os palhaços no circo, mas apenas vejo algodão branco, algodão cinzento, algodão rosado – algodão. As asas dos anjos que nos velam as noites (e os dias), os mensageiros de Deus, ou de um deus, ou de uma força superior, ou …
E as nuvens desfilam, em parada, sobre a minha cabeça; acabam por acalmar a dor, mascarar o vazio, calar as lágrimas que, invariavelmente, solenemente, dolorosamente, ainda caem, ainda inundam o rosto, as mãos - a vida. Talvez este desfile celestial seja um beijo teu… Tu sabes que eu adoro a natureza! Acredito que tenhas pedido ao Pai para me dar um sinal, um sinal que estás aí; perdão! Que estás AQUI!!!
É isso, não preciso de ver mais nada, procurar mais nada; já tenho tudo o que posso ter!

Minha estrelinha recebe um beijo meu daqui até aí. Hoje e sempre.





domingo, julho 23, 2017

UM NOVO ANO PARA VENCER




Uma névoa de lembranças sem nexo nem tempo,
espelham-se num sorriso sem cor - apenas sorriso,
sem noção de vida nem de morte.
Apenas um momento, este; o segundo em contra-tempo,
que o presente esvai-se sem rasto - impreciso.
Sem saber se é fraco ou forte.
Olhar sem ver, ver sem entender, apenas uma casca
que um dia foi habitada; teve alma, coração, sentir.
Ainda assim, está. Ainda assim sorri como criança,
que sem saber procura abrigo, inconsciente, da borrasca.
Que pede segurança, quem sabe um colo, sem pedir.
Um apenas existir sem noção nem lembrança.
 Uma vida de névoa, uma névoa de vida,
uma luta desigual, uma luta perdida,
uma sombra de gente, 
uma alma ausente.
Mas ainda assim.... Mais um ano de vida. (87)



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UM ABRAÇO DE ABRAÇAR


Hoje fui ouvir o vento
forçando-se por entre a folhagem,
rosnando por entre os troncos a brincar à cabra-cega.
Hoje, a paz que vem por dentro,
trouxe-ma o vento à sua passagem,
conversando com a natureza em singela entrega.
Conciliábulo de força e vontades,
rumorejam as copas, bem lá no alto,
e o vento sopra, ardente, rente à vida.
Agitam-se as folhas, conjuram-se as verdades;
as mãos dos bons gigantes tomam de assalto
o ar, a tarde, o espaço, beleza emergida
das entranhas de uma terra sofrida.
Debaixo das copas agitadas e felizes,
detive os passos em silenciosa adoração.
Cabelos ao vento conversador,
coração em sintonia e alma pacificada, recolhida,
sacudida pelas mãos do vento, rijo, deste Verão.
Ouvindo as árvores no seu conversar apaziguador.
Como amoras de negra doçura e silencioso perdão.
Hoje fui ouvir o vento; sentir-lhe as mãos,
saborear-lhe o gosto nos lábios sequiosos de paz.
Hoje fui inundar-me de alegria,
vestir a pele da natureza, despir-me de sonhos vãos.
O sorriso fez-se fácil: sem razão, daqueles que apraz
sentir crescer. Verdadeiro, interior – em amena sintonia
com o rugir das árvores - e o bramir do vento.
Hoje fui vestir-me de mim ; em paz por um momento.

Se perguntarem por mim digam:
 Que parti – parti feliz… fui abraçar uma árvore; ouvir-lhe a voz.


Oiço o mar em terra adentro;
ondas bravias em célere movimento.
E vejo-as, verdes, agitadas, frenéticas,
de cá para lá… de lá para cá - eclécticas.
Os bons gigantes dançam ao som do vendaval;
gigantes de anciã elegância, roupagem sem igual.
Oiço o mar na ramaria, parecem marés vivas!
Contorcem-se os troncos, agitam-se as folhas esquivas.
Fecho os olhos para sentir este rumorejar,
quase sinto o salitre, quase toco o imenso mar.
Oiço-o em terra seca, em encosta de verde vestida,
ondulante como maré cheia em pleno areal estendida.
Frenética dança de folhas, hiperbólico perfume
espalhado pelo ar, chocalhado de ventania.
Um mar, em terra adentro, soprando o seu queixume

pelas copas verdes, despenteadas, em desenfreada melodia. 




terça-feira, julho 18, 2017

ESPAÇO POR PREENCHER




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Neste espaço onde se perde o querer,
onde a alma tropeça sem perceber
que errou no caminho escolhido.
Neste espaço onde se juntam os restos
de um acreditar sem tamanho; todos os gestos
que ficaram a morrer sem mais sentido.
É neste espaço que retoco a face, enxugo a dor,
calo a tristeza, componho o cabelo sem cor
e o olhar sem brilho. Visto o vestido de primavera
para me esquecer do frio e escuro inverno.
É no silencio deste espaço, de amordaçado inferno,
que procuro as lições com que a vida me tempera,
me molda, me torce e retorce, e me veste de bruma.
E me veste de encanecido sonho, desvanecido na espuma
de um tempo arrancado ao tempo. De um tempo que passou.
Neste espaço de atabafado ser andante, sem varinha de condão,
sem passes de mágica; onde apenas a construída solidão
impera – rainha –, senhora e dona de tudo o que restou.
Neste espaço de limbo sem sentires, de dor embotada
de tanto doer. De caminhos feitos de passos incertos a tropeçar,
e decisões que o tempo impõe e a vida se empenha em retardar.
Neste espaço que medeia o ontem e o hoje, ponte tão desejada;
ponte tão amada, ponte tão querida, ponte tão amargamente sofrida…
Neste espaço que, hoje, refaço com o que sobrou do sonho desfeito,
ainda há lugar para memórias, ainda há lugar para a dor e, por defeito,
há lugar para a esperança – uma ténue sensação de partida.
Neste espaço onde se perde o querer…
Neste espaço onde se juntam os restos…

Neste espaço inundado de um tempo para esquecer.

sexta-feira, julho 14, 2017

MELODIA QUEBRADA



No veludo negro do celestial manto
escuto as notas de um piano sofrido,
percorro as memórias dedilhando, em pranto,
esta inquinada melodia de um coração partido.
Visto-me de brumas e sonhos – parto sem rumo –
pelas pedras de uma calçada que desconheço,
perdendo-me numa noite em que me esfumo
como suspiro de borboleta breve, e amanheço
num barco sem leme, ancorado em cais de partida
á espera de uma maré; á espera de uma vida.
E o piano toca, chora e geme em louco pranto,
e a noite cala-se para lhe ouvir a dor.
Palmilhando a calçada vai a alma num quebranto,
vai a vida deslizando, vai serena e já sem cor.
No cais das vidas perdidas uma sereia soluça,
traz nas mãos salgadas pérolas, rosário de muitas lutas.
E o barco faz-se ao mar, onde se agita e embuça,
rangendo as madeiras doridas, gastas de tantas escutas.
Toca o piano pela noite, em tom plangente,
e a alma cala-se, recolhida e dormente.


No veludo negro do celestial manto… ainda oiço as notas do piano 












quinta-feira, julho 13, 2017

UMA ROSA BRANCA NUM DIA NEGRO

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Olho o céu nesta noite que caiu, 
sem que pudesse prender o dia,
e parte do meu coração ruiu.
Partiu contigo, amiga; quem diria
que te fosse dizer "adeus até a eternidade"!
Tu, anjo doce, mulher de tamanha bondade,
que espalhavas sorrisos e magia,
que escondias a mágoa e a dor.
Deixas um espaço onde a tua energia
vai fazer florir um jardim de amor.
Esse amor que nunca negaste,
essa mão com que sempre acarinhaste
quem de ti dependia, quem de ti vivia.
Repousa no teu lugar lá no firmamento;
alma generosa de um perfume que inebria
quem contigo conviveu. Hoje só o meu lamento
que se queda em profunda oração.
As tuas "estrelas e sorrisos" não voltarão
a povoar o meu caminho...

Descansa em paz querida amiga; os teus aguardam-te de braços abertos.
O amor que espalhaste a ti retorna....

ATE À ETERNIDADE HELENA

terça-feira, junho 27, 2017

ORIGAMI

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Alma dobrada em dois, coração partido em quatro,
boneca de porcelana mas mãos de uma criança
e janelas abertas ao sol poente mordendo de esperança.
Um mar que se quebra ao longe na penedia rude,
arrastando as lembranças de uma vida passada,
de sonhos ardentemente sonhados. Folha amassada
perdida num canto escuro da mente, para não doer,
para não ferir; apenas esquecida de tempos sem tempo.
Melodia furiosamente martelada a meio-tempo,
semi-breves e colcheias bailando em louca alucinação,
acordes de outras vidas que flutuam num limbo sem cor,
que se acomodam em leito de folhas secas de dor.

Alma dobrada em dois, coração partido em quatro,
andorinha sem Primavera olhando o mar sem fim,
esperando que passe o infinito com asas de alvo marfim, 
tolhendo o voo e a partida. Andorinha solitária
em cais de ansiadas chegadas e dolorosas idas.
Lenços brancos de acenadas despedidas,
olhos cansados de lágrimas frias de solidão.
Como é frio este ar de salgado azul e duro bem-querer!
Como pesam os grilhões de uma alma a morrer!
Ecoam melodias gastas de tanto correr o piano,
e as memórias fluem como pássaros sem céu nem terra,
sem ninho nem descendência. O sol, a seara e a serra
passam, com o rodopiar dos dias, na sua muda harmonia,
nas sua radiosa cantata; ópera de mil cantores,
mil palcos, mil cenários e mil cores.

Alma dobrada em dois, coração partido em quatro,
pés descalços em pesado chão de chumbo,
mãos vazias onde me esqueço e sucumbo,
olhar sem pleno nem vago; apenas um só olhar.
Apenas um bálsamo, apenas uma fonte de saudade,
apenas um só vislumbre, uma tosca oportunidade.
Menina que vês o mar de barcos sem velas nem mastro;
olhas, olhando sem ver, choras chorando sem chorar,
cala as lágrimas, o soluço; levanta-te... Tens um mundo por caminhar


domingo, junho 18, 2017

DAS PERGUNTAS SEM RESPOSTA...

Quando não temos as respostas,
temos que viver com as perguntas
e encontrar o caminho.
Quando a vida nos traz propostas
e não sabes se as separas se as juntas,
se colhes a rosa ou feres no espinho;
tens que seguir a lutar.

Tens que seguir e acreditar.
A vida é feita de "sins" e de "nãos",
é feita de ir sem saber: arriscar.
E encontrar o caminho.
Nada nos é garantido, ou dado em mãos,
tudo requer empenho, esforço: conquistar
o nosso espaço e o nosso cantinho
para morar.

Quando não temos respostas, temos que viver com as perguntas
e encontrar o caminho - de volta - ao próprio mar.




quinta-feira, junho 08, 2017

ACEITAÇÃO - SERENIDADE - PERDÃO - RECONHECIMENTO.... VIDA

Sinto muito – por tudo o que fiz e não fiz,
por tudo o que dei: mal, e não dei: de todo.
Sinto muito – por tudo o que vi mal e não vi,
por tudo o que quis sem querer, e tudo o que não quis.
Perdão - por tudo o que devia ser de outro modo,
não foi porque não me esforcei. Não consegui.
Perdão – por tudo o que ficou mal tecido,
mal composto, mal explicado e consentido.

Amo o que em mim habita, porque isso; sou eu.
Porque, bem ou mal, aceito. Serenamente, aceito.
Amo tudo o que brota no meu caminho, existe por mim,
envolve-me o ser, veste-me o espírito – é meu.
E, no entanto, não é; flui e passa, escorre sem preconceito
pela minha vida de dor. Mas amo, amo apenas porque: sim.
Agradeço cada memória, cada passo, cada hora que vivi,
só assim aceito e vou. Só assim posso ver tudo o que percorri.


Agradeço cada pedaço de sonho: vivido ou incumprido.
E cada pedaço de pão, mesmo o que o inimigo amassou.
E cada lua: nova, crescente, ou minguante de desilusão.
Agradeço ao que passou – faz parte de um destino cumprido -,
porque a ele não se foge, não se nega. E tudo o que já passou
é parte deste corpo mortal e desta alma elevada, em sublimação.
Agradeço tudo o que já caminhei, vivi, perdi e aprendi,
agradeço o que dei sem limite, o que, limitado e cerceado, recebi.


Sinto muito – o que fiz e não fiz.
Peço perdão – pelo que dei e não dei.
Amo – o que fiz e desfiz.
Agradeço – todos os caminhos que trilhei.

segunda-feira, maio 29, 2017

BRUMAS E SABOR A SAL....


Acordei em ilha de sonho;
 de brumas e sabor a sal,
de verdes e azuis enfeitada,
a lava e solidão pespontada.
Entreguei alma e coração
em acordes de estranha melodia;
fundi-me com a terra e o mar,
dedilhei o verbo amar,
ganhei asas de borboleta
e corpo de água sem fundo.
Fui orvalho odoroso,
e fui sonho fervoroso.
Fui pomba de paz e perdão;
alma de gaivota sem rumo,
sem pátria, sem asas, sem lar.
Abri portas de par em par,
e deambulei em estranha ilha
 onde o sol brilha de noite,
a lua sorri de dia:
estrelas vagueiam à porfia.
Vesti-me de lendas e sonhos,
premonições e segredos,
entrancei os cabelos com brumas,
com algas e medos, com plumas,
e flores de perfumado Folhado.
Um deus de sacrílego feitiço
aprisionou a minh’alma,
povoou-a de hortências; com calma
enleou-a em estrofes e heras.
Calcei sapatinhos de musgo,
perdi-me em cais de adeus magoado.
Rezei um Pai-Nosso, desesperado
de saudades e de esperas.
Acordei em cama de rosmaninho,
com sonhos de alfazema e infinito,
brandi o punhal de sagrado rito,
bebi o cálice do fel da terra:
afoguei o coração desfeito
numa lagoa sem memória.
Dos fracos, dizem, não reza a História.
Acordei em ilha de sonho,
de brumosa maresia,
que me veste o corpo e alma

com pomos de poesia….

ESFUMADO CORAÇÃO




Pedi as asas a um anjo: ele permitiu que as usasse.
Dei-as ao meu coração para que crescesse e voasse.
E ele, simplesmente, voou.

Pedi o olhar, puro, de uma criança: ela deu-mo com ternura.
Dei-o ao meu coração para que visse o mundo com candura,
e ele viu e se encantou.

Quis ter um coração de carne, amante, bom, sem mácula,
e dei-lhe o que de melhor havia em mim; dei-lhe forma e cor,
dei-lhe luz, dei-lhe o sentir, dei-lhe força e entrega sem limites.
Não esperava que o enchessem de dor, de cinzas e mágoa.
Acreditei que ele viveria, apenas e só, de e por amor.
Hoje, coração, ainda bates, ainda sonhas, mas mal existes.

Pedi as asas e os olhos: pedi uma utopia aos céus,
ingénua menina! Eterna sonhadora – pecados meus.
Crédulo um coração que não conhece a ira.

Para quê amar sem barreiras, sem limites: totalmente?
Por quê perder por amor quando se quer permanecer, somente?
Arde coração! Esfuma-te, dissolve-te nessa dura pira

da indiferença e do silêncio.

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quinta-feira, maio 25, 2017

NOVA HORA, NOVA ESTRADA





É hora de virar a página, de escrever outras letras,
compor uma nova melodia. É hora de recomeço.
É hora de sacudir o pó dos pés, e o sonho que adormeço
embalado num coração desfeito.
É hora de olhar mais à frente, de querer o mais além,
de ter um novo sonho, talvez louco, talvez perfeito,
quem sabe apenas um sonho de ainda ser alguém.
É hora de virar a página, de escrever outras letras,
de ouvir uma nova canção, de dançar uma polca viva.




É hora de me enfeitar com asas de fada, e uma grinalda festiva,
de apagar os negros traços.
É hora de viver as novas horas, de inventar novos minutos
onde se perde o pé, e o coração, em amplos e brilhantes espaços.
Rasgar novos horizontes sem ter que pagar mais tributos.
É hora de virar a página, de escrever outras letras,
de mergulhar em novos mares, afoitar novas marés.
De limpar mágoas e dores, de esquecer cada revés.
É hora de virar a página… Não! É hora de fechar este livro,

e abrir uma janela de luz.


sexta-feira, maio 19, 2017

UM ESPINHO CRAVADO




Porque são tão complicados os corações, pai?
Porque são tão duros os sentimentos mais doces?
Fazer o caminho com um espinho cravado que não sai,
é um travo amargo demais. Sem um gesto que esboce
a mais leve sensibilidade,
a mais simples humanidade.

Diz-me, pai, porque é tão dura a vida? Porquê?
Seguir em frente amordaçando o coração no peito,
calando, sufocando um mundo rico que não se vê.
Apenas para que se cumpra uma "ordem", um preceito.
Uma intransigência, 
uma incongruência.

Porque são tão complicados os corações, pai?
Não sei, minha filha, talvez por serem humanos - de carne.... 



sexta-feira, maio 05, 2017

SE O AMOR NOS DEFINE....




É o amor que nos define, doendo e sofrido;
o amor dado e o amor recebido.
Não é a fama, não é o dinheiro, nem a posse;
é o amor que nos define, mesmo se for precoce,
mesmo se for serôdio, mesmo que por metade.
É o amor que nos define: um amor sem idade,
sem barreiras – amor por amor -, sem mais nada,
sem porquês e sem senãos. Amor na partida e na chegada.
É o amor que nos define, magoado e distorcido:
o amor dado e o amor recebido.
Porque não percebes que o amor comanda a vida?
Essa vida que um dia te vai cobrar a sua divida.

É o amor que nos define: o amor dado, o amor recebido.



(partindo de uma frase - é o amor que nos define)

AVESSO DE ALMA



Quero ver o avesso de mim. Aquela face com bolor e pó,
aquele “in” que não se vê, mas está cá – sou EU.
Quero virar a pele, a carne e os ossos, virar-me: só.
E abraçar, com braços de alma, o que vejo e vida me deu.
Quero limpar este “sótão” de alma sofrida: deixar o sol entrar,
permitir-me seguir, ir, absorver, acordar, viver o hoje – apenas estar.

Quero ver o avesso da alma. Da minha, desta etérea senhora que me habita,
desta desajeitada sombra que me segue os passos, me segue a vida.
Virar do avesso e sacudir a dor, o vazio, o abandono, este estar proscrita
de sentimentos, condenada pelo coração amante: viver assim, banida.
Quero deixar entrar o sol, o vento, a Primavera – em pleno –, em cheio,
redonda, vibrante, quero apenas, e só, vogar em suave devaneio.

Quero ver o avesso de mim, da minha alma empoeirada,
do meu coração engelhado, dos meus passos encolhidos,
pobres e ensombrados. Quero abrir a janela emperrada
e deixar entrar a vida: é hora de liberar todos os “proibidos”
e “sentidos únicos”, “estradas sem saída”; é hora de serenidade,
aceitação, de olhar erguido, alma renovada; de enterrar a saudade.


A vida não espera,

a morte não tarda,

as horas não param: avessar a alma é urgente.




quarta-feira, abril 19, 2017

CHEGADA POR PARTIDA




Chegaste devagar como quem semeia a Primavera,
entornaste as tintas de um arco-íris de recomeço
com sabor a vida passada e cheiro de desconhecido.
Chegaste como quem nem tinha partido, nem se desvanecera
no grito de um silencio rouco, que rasga o peito que ofereço
à dor da mágoa: ao medo da perda e do caminho esquecido.
Chegaste: como se o mundo não houvesse, e a vida se apagasse,
como vela soprada por infantil alegria, ou por senil desapego.

Chegaste: nada mudou, tudo se perpetua como parafuso sem fim.
Mas eu quero-te! Com a alma e com a razão de quem guardasse
o maior tesouro na sombra do olhar, amante, amado. Eterno desassossego.
Chegaste sem chegar, porque não estás. Porque partes e te afastas de mim.
Chegaste devagar como quem semeia o Inverno,
escreveste a letra de um hino fúnebre, nos muros de um coração magoado,
chegaste pintando um prometido inferno.
Parte sem demora: sem olhares para trás, eu vou vestir-me de sonho esfarrapado.



Chegaste - devagar - a semear utopia. Vai - rápido - para esquecer a cobardia.